sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Proibido fumar em Buenos Aires

Fui passar os últimos dias de 2008 e os primeiros de 2009 em Buenos Aires com uns amigos. Numa tarde, fomos à Bond Street, uma espécie de Galeria do Rock menor e sem as figuras bizarras da matriz paulistana, mas cheia de lojas de roupa descoladas. Estava espiando uns vestidos em uma delas e a música que estava tocando me chamou a atenção. Era uma mistura insana de rock (punk, mais especificamente) com música cigana. Perguntei para a atendente o que era e ela me disse que era a banda do Emir Kusturica. Acabei levando um vestido.
No dia 31 de dezembro, fui acompanhar umas amigas que queriam comprar uma blusa branca pro ano novo e entramos em outra loja estilosa. De novo, a trilha sonora do lugar era punk cigano. Só para confirmar, perguntei à vendedora o que era e ela respondeu: a banda do Emir Kusturica. De novo, levei um vestido - se algum dia entrar no ramo de venda de roupas, na minha loja só vai tocar Emir Kusturica, ele ativa o lado consumista nas pessoas.

Bom, Emir Kusturica é um cineasta e músico nascido na antiga Iugoslávia, e a banda à qual elas se referiam é a No Smoking Orchestra. Ela surgiu em Sarajevo no começo dos anos 80 com o nome de Zabranjeno Pusenje (que significa "proibido fumar" em servo-croata) e, desde o início, misturou punk rock à música cigana. Depois de lançar alguns LPs e de arrumar encrenca com as ôtoridades iugoslavas, a banda se dividiu em duas no início dos anos 90: parte dos integrantes permaneceu em Sarajevo (um lugar não muito agradável de se viver no início dos anos 90, by the way...) e continuou com o nome Zabranjeno Pusenje, e outra parte se mudou para Belgrado e, alguns anos depois, deu origem a Emir Kusturica & The No Smoking Orchestra, que era o que estava tocando nas lojas em Buenos Aires. Agora, o lance bizarro da história é que, sabe-se lá por quê razão, o iugoslavo/cigano Emir Kusturica criou uma ligação super forte com a Argentina, a ponto de sua banda ter gravado um CD-DVD ao vivo em Buenos Aires e de ele ter dirigido UM DOCUMENTÁRIO SOBRE MARADONA! Com certeza é por isso que nuestros hermanos gostam tanto da música do cara - e provavelmente também é por isso que ninguém fala dele no Brasil...

Neste site tem toda a discografia da banda + as trilhas sonoras dos filmes de Emir Kusturica.

E aqui vai o trailler do documentário do Maradona:


Que tal God Save the Queen como trilha para Dieguito, hein?

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Bando de animais

Finalmente criei disposição para começar 2009, após uma viagem para Buenos Aires ao som de Emir Kusturica (tema do meu próximo post) e outra para Parati sem trilha sonora.

Bom, já tinha lido bastante sobre o Animal Collective mas não tinha me animado a ouvir. Uns dizem que é o novo Velvet Underground, outros dizem que é uma merda, e eu fui acabar tirando minhas próprias conclusões apenas recentemente. Ainda não mergulhei direito no universo desse bando de animais, mas pelo que conheci me parece uma mistura de noise com psicodelia regado a litros de eletrônica, com métricas quebradas e músicas praticamente sem forma. Em uma palavra: estranho. Em outra palavra: gostei.




ps: ah, e eles acabaram de lançar um disco novo, chamado Merriweather Post Pavillion. Lançar um disco em janeiro: isso sim é começar o ano com tudo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Hurtmold no Auditório Ibirapuera


E por falar em dinheiro bem gasto, que showzaço foi o Hurtmold no Auditório Ibirapuera no domingo. A apresentação era uma comemoração dupla (dez anos de banda e três anos de Studio SP) e contou com a participação de Paulo Santos, do Uakti.

Minha convivência com músicos de jazz acabou me causando uma certa ojeriza à música popular instrumental - quando um professor gabaritado diz que "música é só um pretexto pra improvisar" tem algo de errado com a concepção de "música" do cara... Por esse meu probleminha particular, sempre mantive um pé atrás em relação ao Hurtmold. Vi uma apresentação deles uma vez no Outs, achei interessante mas meio enfadonho - claro, até Bach soa uma merda com aquela acústica.

A apresentação no Auditório Ibirapuera, que tem uma acústica incrível e onde tive uma das melhores experiências estéticas da minha vida (concerto do Pierre Henry, indescritível), me pareceu uma boa oportunidade de encarar esse monstro de seis cabeças. E, nossa: que puta banda!

Eles são o oposto de tudo aquilo que me irrita no jazz. Para começar, as músicas são instrumentais, mas não têm NENHUM SOLO. A coisa mais parecida com um solo foi quando Paulo Santos ficou tocando alguns instrumentos malucos enquanto os caras do Hurtmold seguravam uma base constante. Mas nada exagerado, masturbatório.

Provavelmente deve haver alguns momentos de improvisação, mas a banda é tão coesa e tem um espírito de coletividade tão grande que realmente não dá para perceber quando isso acontece. Enfim, as músicas do grupo são compostas do início ao fim, tem uma história, um fluxo narrativo - elas vão de um ponto e chegam a outro, diferente da maioria das composições de jazz que vão do nada ao lugar nenhum. Embora nem todos os jazzistas tenham coragem de afirmar, como o meu professor, que a "música é pretexto para improvisar", boa parte deles age assim na hora de compor. Porque o jazz é basicamente um tema tocado no começo, seguido por uma sucessão de solos (de sax, guitarra, baixo, bateria, lápis no dente, cachorro latindo), seguido pelo mesmo tema do começo executado novamente. Complexo, não? E é esse tipo de música considerada o supra-sumo da "sofisticação". Se levarmos em conta que a maioria dos temas são umas bobagens, a situação complica mais ainda - experimente tirar os solos de "So what", que são incríveis, preciso admitir, e veja o que sobrou da música...

Voltando ao Hurtmold: uma banda sem solos, com espírito de coletivo, composições maduras (e inteiras...) e, por fim, com zero de virtuosismo. Eles são ótimos instrumentistas, principalmente o Takara na bateria, mas nada que faça cair o queixo. O vibrafonista, inclusive, toca só com duas baquetas. Porque o que importa é o todo e não a habilidade individual de cada um. Ela é só necessária para o que a música pede. E, com criatividade e maturidade, ninguém precisa tocar guitarra plantando bananeira.

Apesar de um monte de gente na platéia estar registrando o show com suas câmeras digitais, não encontrei nenhum vídeo da apresentação no Youtube. Então deixo vocês com o clipe de "Sabo", música que abriu o show e que traduz muito bem tudo o que eu disse sobre a banda. Prestem atenção como o tema que é tocado no início passa por um desenvolvimento para voltar transformado no fim da música- até me lembrou da famosa "forma-sonata"...



segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Meredith Monk - Impermanência

Eu não conhecia Meredith Monk, mas me interessei pelo que li sobre ela nos jornais. Para não fazer a mesma cagada que fiz com o show da Laurie Anderson, corri para comprar meu ingresso para a apresentação de Monk no teatro Santa Cruz. Ainda bem, porque foram os 47 reais mais bem gastos da minha vida.

Meredith Monk nasceu aristicamente na vangarda novaiorquina dos anos 70, enveredou pelo budismo e hoje faz uma música que é um misto de experimentação e espiritualidade. Sua estética pode ser chamada de minimalista, repetitiva. Suas músicas/peças são como mantras (um tanto "vanguardeados", é claro). Não se sai de uma apresentação de Monk do mesmo jeito que se entrou - o que me faz pensar que, se não fosse o casal com DUAS crianças que não paravam quietas ao meu lado, eu teria saído do colégio Santa Cruz transmutada em monja tibetana.

E, falando em monjes tibetanos, Monk faz aquela coisa absurda com a voz que esses monjes também fazem: consegue emitir DUAS notas ao mesmo tempo. Só que os monjes vivem no meio do nada e passam o dia todo meditando e treinando peripécias vocais. E Monk vive em Nova York e passa o dia compondo, ensaiando, bolando coreografias, filmando - sim, ela é o que podemos chamar de artista multimídia.

Mas voltando à voz: Monk também é mestra em usar microtons, em mudar de timbre de um segundo para outro e de utilizar os mais diversos barulhos vocais - desde risadas, estaladas de língua até sons inclassificáveis. Seu Vocal Ensemble, formado por 4 cantores-dançarinos, também é impressionante. Mas não se trata de vistuosismo exibicionista: a técnica é usada a serviço da música, que é contida, minimalista.

Impermanência é uma das únicas obras de Monk que utiliza palavras, embora não o faça o tempo todo. E, mesmo nos momentos "literários", a palavra está lá mais pelo som do que pelo significado. Agora imagine uma música essencialmente vocal que consegue tocar o ouvinte sem possuir uma letra com sentido. Foi uma das pouquíssimas vezes que me senti próxima ao sublime.

Fui procurar no Youtube algum vídeo da apresentação e eis que me deparo com um documentário sobre Meredith Monk dirigido por Peter Greenaway. Lá vai:















sábado, 18 de outubro de 2008

Kill Your Idols

E a Pitchfork disponibilizou (provavelmente, por tempo limitado) o documentário Kill Your Idols. O filme conta um pouco da história da no wave, com entrevistas de Lydia Lunch, Arto Lindsay, Glenn Branca, Thurston Moore, entre outros. A partir de um certo ponto, o documentário começa a falar sobre a cena atual (atual de 2002...) de Nova York e a fazer comparações entre passado e presente e a coisa fica meio besta. Primeiro porque eles fizeram uma seleção completamente aleatória de bandas (tem desde o ótimo Gogol Bordello até o medonho a.r.e. weapons, de quem eu felizmente nunca mais ouvi falar), segundo porque esse discursinho de "ai, antigamente que era bom" não cola, né... ainda mais quando é uma Lydia Lunh balofa e ressentida quem está falando.
Mas, de qualquer forma, vale como documento histórico. E está disponível de graça...

O link: http://www1.pitchfork.tv/week/kill-your-idols

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Percorso Ensemble - A música de Steve Reich

Acabei de voltar do concerto A música de Steve Reich, do Percorso Ensemble, grupo brasileiro de percussão dirigido por Ricardo Bologna. Foi um concerto curto, só duas peças de cerca de meia hora cada uma. A primeira foi Six Marimbas, de 1986, e a segunda e última, Sextet, de 1984.

Antes de começar o concerto propriamente dito, Bologna explicou um pouco da técnica minimalista do compositor usando trechos da primeira peça como exemplo. O diretor também contou que Reich não gostava de ver sua música classificada como "minimalista": preferia "repetitiva". Enquanto isso, dezenas de mosquitinhos do calor, que na verdade são cupins, faziam a festa. E foi um tal de músico dar baquetada em mosquito, mosquito invadir partituras... uma beleza. Sorte que, segundos antes de o concerto começar pra valer, alguém do público deu a idéia de diminuir a luz do palco e acender uma luz no fundo da platéia para desviar os bichinhos infernais dos pobres percussionistas.

Problemas com insetos resolvidos, começou Six Marimbas. Me lembrou bastante a sexta sinfonia pra guitarra do Glenn Branca, sobre a qual já fiz alguns comentários aqui. No meio de um bololô sonoro, nascem algumas melodias, que começam baixinhas, crescem e depois se esvaem, como uma paisagem na estrada quando se está viajando de carro. E então nossa atenção se volta para uma acentuação diferente, ou para a própria base quase hipnótica de tão repetitiva, e depois para uma nova mini-melodia que surge suavemente. Como o próprio Bologna comentou, no pequeno intervalo entre uma peça e outra, a música minimalista talvez seja a mais democrática para o ouvinte, pois cada um tem sua atenção voltada para algo diferente, cada um tem sua própria audição da peça. Diferente da música a que estamos acostumados, na qual nossa atenção é constantemente guiada e só com muito esforço conseguimos reparar em algo que não seja a melodia principal. Na música minimalista, o ouvinte não é levado pela mão.

A segunda peça, Sextet, foi um pouco mais difícil de absorver - pelo menos para mim. Mas isso não é nenhum defeito, muito pelo contrário: quanto mais desafiador, melhor. Sextet é linda, com variedade timbrística que inclui tambores, marimbas, pianos, sintetizadores, vibrafones, vibrafones tocados com arco de contrabaixo e até um gongo (tocado uma vez só), mas, enquanto Six Marimbas possui uma forma rigidíssima (os três movimentos são praticamente as mesmas linhas rítmicas e melódicas tocadas em tonalidades diferentes), Sextet é mais solta. São muitos elementos, muitas possibilidades, enfim, muita informação, que meu cérebro pouco acostumado com música cerebral não conseguiu processar direito.

Acho que preciso de mais algumas audições para conseguir achar o Wally...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Pobre blog abandonado...

Estágio (que só agora começou pra valer) + trocentos trabalhos pra faculdade + 9 LPs novos (Itamar, Tetê, Rumo, Premê - rimou!!) + muito sono = blog abandonado.

Mas prometooooo retomá-lo de verdade, nem que seja só em dezembro. Aí juro que posto uma resenha do Big Science, primeiro disco da Laurie Anderson (que é fodaço, jizuiz), falo mais sobre as sinfonias pra guitarra do Glenn Branca (que baixei e nem ouvi, desnaturada)e tudo mais que for barulhento.

Só pra não perder o pique, dois vídeos:


Performance Um Almoço para Arnold Schoenberg, by Dudu Tsuda e Tulipa Ruiz


"Seele Brennt" - Einstürzende Neubauten (é uma sacanagem com a borboleta,mas putavideofodadocaraleo)